Brasil : em direção a uma revolução cidadã*?

* O termo faz aqui referência ao Equador do Rafael Correa que inspirou uma parte da esquerda francesa (Fr)

(En version française  ici)

Como nosso amigo Quentin, eu me torno cidadã-mídia e trago meus « dois centavos » à discussão, sob a forma de um diálogo aberto com o que foi dito aqui (Fr) e ali (Fr).

O Brasil não é, e provavelmente nunca será, um bloco uniforme. Até há pouco tempo, ainda era um dos campeão em termos de desigualdade (Fr) e os dois mandatos da esquerda do PT de Lula e Dilma, certamente colocou a balança a favor dos explorados, mas sem nunca fundamentalmente questionar o sistema econômico – o capitalismo financiarizado – cujo princípio fundamental é a crescente mercantilização dos direitos humanos e até os humanos eles-mesmos e a exploração da maioria por uma minoria de pessoas.

A reação de uma parte dos 200 milhões de pessoas que conta o país é uma coisa espetacular, histórica na minha opinião. Em um país que viveu a ditadura e a interferência dos Estados-Unidos durante décadas, um tal vento de revolta parece saudável e proveitoso. Isso mostra que o país não dorme e que a democracia está viva. Um pensamento agora para o comentar de meu compatriota Jérôme Valcke, secretário geral da FIFA, tanto idiota quanto ele é francês,  mas que nos lembrou de como a organização de um evento global como a Copa do Mundo e os investimentos que foram necessários para a sua organização permanecem em total contradição com o respeito da população do país que o recebe e, assim, da democracia. Grande sabedoria do Môssieur Valke…brasil-protesto-rio-de-janeiro-20130620-31-size-598

Assim, uma parte do povo descendeu na rua. Ela não gostou dos 20 centavos suplementares que levaram do bolso dela sem lhe pedir permissão. Desta maneira, decidiu dar a opinião própria sobre a situação, do seu próprio jeito.

Como qualquer movimento popular, toda revolução ou movimento social, traz em si suas próprias contradições. Pintar o movimento como sendo da Direita como podemos ouvir, apenas por causa do fato de que é principalmente a classe média, urbana, educada e que têm acesso à saúde que foi mobilizada em primeiro lugar, é ridículo quando você olha para as reivindicações defendidas durante as manifestações e que são principalmente progressivas.

20ctProgressiva, primeiro porque é de saúde, educação, democracia direta, de direitos humanos das mulheres, dos trabalhadores, das minorias, dos negros, dos índios que se trata… Resumidamente, o caráter é universal. Ela procura se livrar da corrupção que impede a redistribuição das riquezas, do que o país é tão rico e as pessoas tão pobres. A classe média, certamente, foi para a escola elementar e ensino médio privados, tem plano de saúde, e muitas vezes uma empregada ou mais. Mas vamos parar. Será que ela não está pedindo um melhor acesso para todos ao SUS? Será que ela não exige que o aumento do salário mínimo que, sempre é bom lembrar, é hoje R$ 678 e que nem está suficiente para alugar um só pequeno quarto na principais cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. A classe média quer mais professores no setor público, e com melhores salários. Ela quer acabar com a criminalização dos movimentos sociais, infelizmente fenômeno também bem conhecido na Europa e na França (Fr), e outras coisas díspares como o direito ao aborto, o fim de leis como aquela sobre o estatuto de nascitura, o estado laico, etc. Não que eu quero dizer que todas estas últimas sejam desligadas das primeiras, ao contrário. Elas não são, de fato. Tratar por exemplo da precariedade dos professores no sistema educacional público atual, pode facilmente ser entendido como causa feminista pelo simples fato que muitos professores, são professoras !

A massa, como eu já expliquei, é heterogênea e, por definição, a sua cólera agregou uma série de perfis de atores muitos diferentes. Assim, seria absurdo negar que uma parte tem inspirações conservadoras, até mesmo reacionárias. O papel desempenhado pelos mídias parece-me aqui fundamental na construção do discurso antirrevolucionário que está em processo, até as vezes dentro do povo de esquerda.

Então, assistimos primeiro a inúmeros de cenas das violências que ocorreram durante os protestos. Cenas que servem primeiro, a desencorajar qualquer um que viu para essas imagens de chegar e se juntar às manifestações. Servem em seguido a deslegitimar os manifestantes, e mais importante suas reivindicações. Mas em frente da violência, incontestável e pouco contestada (artigo para assinantes (fr)) das forças policiais, que vamos discutir em breve, as grandes mídias, incluindo a Globo, mudaram a estratégia delas. De fato, a Globo, com o monopólio do da audiência / dos meios financeiros à sua disposição, o que é em si caricatura ao suficiente sem ter que se expandir muito mais sobre o assunto (ver « Na América Latina, os governos enfrentam os patrões Pressione « – artigo disponível aqui), viram os eventos como sendo contra a presidente Dilma e em favor da alternância. Inútil será de dizer que é claramente posicionada à direita. Isso não é tão surpreendente quando se conhece a história dela e quando se sabe – é sempre bom acordar memórias enterradas –  que ela apoiou o golpe d Estado golpe de 1964, ainda celebrado como uma revolução do lado dos militares.

A Rede Globo, como as outras mídias, não sendo mais em capacidade de negar a importância da mobilização começou por escolher seus líderes, na objetividade que o livre exercício da profissão exige, é claro. Ali surgiu o « novo Brasil », os « gigante acordou » e outros palavras de ordem completamente orientada em direção de um tipo de nacionalismo de fachada despolitizada, na realidade politizada à direita da direita. Devo dizer que a Globo é muito bom no que faz. Quando começou a trabalhar, se esforçou, e o resultado foi certamente à altura do melhor que ela sabe fazer.

As grandes mídias, aliados bondosas dos grupos de direitos e extrema-direita que tentam se infiltrar em eventos, são vaiados na rua, e com razão na minha opinião. Os jornalistas da rede são, portanto, obrigados a se esconder e remover os seus sinais em perigo de ser apedrejada … O círculo é completo. Depois de violências contra a polícia, os manifestantes do « mal », que não usam o amarelo e verde, se você seguir, agora contra a liberdade de imprensa. Mas o que faz a polícia?

17jun2013---pm-espirra-spray-de-pimenta-sobre-manifestante-durante-protesto-no-rio-de-janeiro-contra-aumento-das-tarifas-de-onibus-na-noite-desta-segunda-feira-17-protestos-eclodiram-em-sete-capitais-1371550052055_1920x1080Bem, a polícia, também, na medida em que é um bom aluno, ela trabalha, se aplica e se esforça, muito. E duro. Por mais duro que puder. Tanto duro  que um golpe em um crânio de hippie-à-flor. Ela gaze, bate, persegue inabalável para as ruas, lança as famosas bombas de som que ajoelhar um regular de rave cabeça colada à caixa de som, ela também prende ali 40 pessoas, 50 lá, ela também é pegada em flagrante quando libera colegas infiltrados … É tão discreta que tem direito a abertura de um processo de investigação. Deve ser dito que a polícia, não é qualquer: é militar. Esta é mais uma vez o tema de uma reivindicação por parte de diferentes organizações marchando nas últimas semanas: a desmilitarização simples e completa da PM, ou seja sua dissolução.

Se o movimento, que pode por alguns pontos lembrar aquele dos indignados na Espanha,  (ainda) é confuso, e talvez o ficará, não é por isso que não tem reivindicações claras, palavras de ordem e projetos políticos. O governo está tentando conter a raiva e fazer migrar a pauta para uma reforma política, espalhando no mesmo tempo alguns milhões aqui e ali …

Entre as várias reivindicações, achamos aquelas do Fórum Lutas contra o aumento da Passagem, concretas como por exemplo:

  • Transporte gratuito;
  • Parar de privatização nos setores de educação, saúde, esportes, transporte;
  • Parar a criminalização dos movimentos sociais;
  • Fim da repressão e desmilitarização da polícia;
  • Democratização da informação e fim dos monopólios;

Isso não corresponde exatamente à reforma projeto sob Dilma…

Lembre-se que o Brasil é um Estado federal e que a maioria dessas alegações se referem a estados específicos. Á seguir. Eu já posso dizer que o dia da final da Copa das Confederações, que será realizada no Maracanã do Rio de Janeiro provavelmente risca de ser animado.

Vamos também apostar que a pressão popular venha a impor uma verdadeira reforma da Constituição, que poderia incluir os requisitos listados acima, nas quais se juntariam outras demandas populares em relação aos direitos dos trabalhadores, povos indígenas, luta contra o racismo ou defesa dos direitos das mulheres. Para isso, a Assembleia Constituinte tarefada de redigir uma nova constituição será formada pelo  povo e eleita por ele. Além do próprio poder político, quem teria a ideia absurdo de de permitir que seja o próprio poder político que decidiria das regras que ele deveria seguir no futuro?

Se uma revolução dos cidadãos acontece, o Brasil se caminharia em direção de uma nova era democrática. Uma era onde o debate não está mais sufocado por jogos institucionais e mediáticos obscuros, mas onde o confronto de ideias poderia finalmente permitir que projetos de novas sociedades existasse, ao lado dos antigos, e talvez, eu o desejo, substituí-los.

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Épilogue de la soirée de Jeudi

La suite du journal de bord de notre ami Quentin, correspondant local et citoyen-média en direct depuis Rio de Janeiro, Brésil.
Rio de Janeiro, le 24 Juin
Bon, alors épilogue de la soirée de Jeudi: après mon retour à la maison, la police a en effet poursuivi les manifestants dans les rues à bord de voitures de police, mais aussi de blindés, et a usé de flashball sur les citoyens en déroute, ainsi que de gaz lacrymogène parfois lancé dans des botequins (bars)…

Protesto-Rio_AEFabioMotta_PLa police n’est effectivement pas formée à contenir ce type de manifestation populaire, elle agit comme en temps de guerre civile, la seule différence avec cette situation est qu’elle use d’armes non-létales, évidemment. Mais les méthodes sont effrayantes: rues barrées, poursuite des manifestants en retraite, arrestations arbitraires (à São Paulo, ont été arrêtés la semaine dernière bon nombre de manifestants qui avaient du vinaigre dans leur sac: cela atténue les effets du gaz au poivre. Avant les manifestations de Jeudi [à confirmer] il semblerait que des personnes actives sur Facebook [on ne peut pas parler de « leader »] aient été assignées à résidence pour la soirée… Le lien pour moi, pour mémoire, d’où vient l’information)…

La police militaire agit sous les ordres du gouverneur de l’état, Cabral à Rio.

Toutes les manifestations n’ont pas dégénéré avec les forces de police (comme se complaît à le montrer Globo), dans certains états (Minas Gerais, Santa Catarina), celles-ci ont même appuyé l’action du peuple en le laissant manifester devant les édifices publics et en n’arrêtant que les vandales. Notons qu’à Belo Horizonte [capitale du Minas Gerais] le commandant était une commandante, ceci explique peut-être cela…

Cette semaine va être plus calme jusqu’à Jeudi au moins: c’est le moment réflexion des manifestants. Il y a des rassemblements un peu partout, lancés sur les réseaux sociaux, pour discuter de la ligne à tenir… Mais tout cela est très flou, les mouvements de gauche et les étudiants sont très désorganisés. On a pu assister dans les dernières manifs à des comportements induits par des groupes aux motivations obscures sur Facebook: souvent ils se réclament de gauche et créent une page d’invitation à la manifestation. Tudo bem. Sur leur page, ils incitent les participants à se vêtir de blanc (symbole de non-adhérence à un parti), à se grimer de vert et jaune, à porter le drapeau Brésilien et chanter l’hymne national… Quand on y regarde de plus près, il arrive que les créateurs de ces pages soient des gens bien à droite tenant des propos quasi fascistes. Car de fait, la manifestation au début était sans parti, née spontanément sur les réseaux sociaux. Certains y ont vu là une source d’orgueil et ont clamé bien fort que cette manif était celle d’un peuple, pas d’un parti. Tudo bem. Sauf que, l’amalgame [marre de la corruption –> Les politiques sont tous corrompus –> Les partis, c’est le mal] aidant, la masse adoptant facilement les slogans simplistes trouvés sur facebook et soufflés par des groupes comme ceux cités ci-avant, on passe subtilement de « Nous n’avons pas de parti » (après tout pourquoi pas?) à « Nous ne voulons pas des partis »! Le peuple se retrouve sans s’en être aperçu à scander des slogans fascistes! Pourtant, l’histoire n’est pas loin, la première chose que fait un régime autoritaire quand il arrive au pouvoir, c’est bien d’interdire les partis…

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Dérive dangereuse du mouvement dont certains commencent à s’alarmer. Nous somme lundi, il doit y avoir au moins deux ou trois réunions prévues tous les jours cette semaine par des gens qui n’assument pas un rôle de leader. « Venez nombreux, on va discuter », c’est le fond creux de la majorité des ces évènements. Mais de quoi? Quelle est la ligne politique? Qui représentez-vous? Quels sont les points que vous soutenez? Il faudrait choisir un objectif et s’y tenir, tout le monde dans cette foule ne manifeste pas pour les mêmes raisons, certains veulent sortir le PT [Parti des Travailleurs, initialement à gauche, aujourd’hui plus au centre] actuellement au pouvoir, d’autres veulent des transports gratuits, d’autres encore la révocation de la PEC-37 [loi qui ampute le rayon d’action de la justice pour les enquêtes criminelles dans les ministères fédéraux et d’état. S’il y a de la corruption, par exemple, aucun organe régulateur ne peut venir fourrer son nez dans l’affaire! Ca me paraît fou. J’ai lu le texte, mais mon Portugais ne permet pas bien de tout comprendre, je vois bien qu’on noie un poisson en parlant du travail exemplaire des flics, du citoyen aux droits inaliénables blablabla, de la patrie, mais je ne vois pas le corps de la réforme. J’attends des explications de Lusophones] il y a un maquis à éclaircir et pour l’instant, aucun groupe de gauche ne parvient à fédérer le mouvement.

aumento_passagemA défaut de représentant de la manif, le gouvernement va parler avec le groupe « Passe Livre » [groupe qui depuis 8 ans demande la gratuité des transports à SP et déclencheur plus ou moins malgré lui des énormes manifestations actuelles] de São Paulo. Enfin, Dilma a annoncé qu’elle allait revoir la législation sur le financement des campagnes. Alors là, je ne suis pas au point, mais il paraît qu’il est légal d’avoir des financements privés dans les campagnes d’élections municipale et d’état. Pour le coup, la corruption devient inhérente au système: si Paes a été financé par les compagnies de transport, comment croire qu’il ne leur est pas obligé? Mais là, je manque de doc [et chez nous, c’est comment? Je sais que les présidentielles sont remboursées à une certaine hauteur si on a les 500 signatures, mais et les municipales? Je suis pas au point].

Bon, je retourne lire un peu, je vais me documenter sur le scandale du Mensalão.

Q.